Repensando a terminologia: Transtornos mentais e o estigma influenciado pelo rótulo
Em resumo
- A terminologia na saúde mental está em constante evolução; no entanto, os nomes usados para definir condições como esquizofrenia, transtorno de personalidade borderline (TPB) e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) permaneceram os mesmos
- Linguagem e terminologia são catalisadores para a compreensão da saúde mental e podem ajudar a moldar percepções, capacitar indivíduos e reduzir o estigma, a fim de construir comunidades inclusivas
- O principal desafio é chegar a um acordo entre psiquiatras sobre quais termos inclusivos usar no futuro e garantir que as preferências e perspectivas dos pacientes sejam colocadas no centro
De onde vem a nomenclatura?
Os nomes das condições de saúde mental crônicas e complexas, como esquizofrenia, TPB e TEPT, evoluíram ao longo do tempo, refletindo nossa compreensão dessas condições e o contexto cultural no qual elas foram nomeadas.
Esquizofrenia, por exemplo, foi chamada de dementia praecox em 1893 por Emil Kraepelin1 e foi posteriormente renomeada para esquizofrenia, o termo que conhecemos até hoje, pelo psiquiatra suíço Eugene Bleuler no início do século 20.1 De acordo com Bleuler, a esquizofrenia é um distúrbio do processo de pensamento caracterizado pela cisão das associações.1 De forma semelhante, o TPB foi denominado para refletir a personalidade limítrofe entre a psiconeurose e a psicose. O termo foi usado pela primeira vez por Adolph Stern em 1938 para descrever indivíduos que exibiam sintomas que não se encaixavam perfeitamente nas categorias de diagnóstico existentes.2
O TEPT surgiu como uma categoria diagnóstica após maior conscientização sobre o impacto psicológico de eventos traumáticos, especialmente entre veteranos de guerra.3 Nas forças armadas britânicas, pacientes que apresentaram várias condições de saúde mental causadas pelo estresse de combate foram inicialmente diagnosticados como tendo neurose de guerra antes que o diagnóstico fosse desencorajado em uma tentativa de limitar o número de casos.3 O termo TEPT apenas se tornou um nome conhecido em 1980, após sua inclusão na terceira edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-III), publicado pela Associação Americana de Psiquiatria (American Psychiatric Association).3 O TEPT também era conhecido como coração de soldado e neurose de guerra.3 O nome reflete os efeitos duradouros que as experiências traumáticas podem ter sobre o bem-estar mental de um indivíduo.
A linguagem importa: Como ela molda a percepção no campo da saúde mental?
A nomenclatura atual usada para descrever os transtornos mentais muitas vezes fica aquém da representação da total complexidade e individualidade das experiências de cada pessoa. Por exemplo, por significar “mente dividida”, o termo esquizofrenia pode fazer com que conotações negativas surjam, ao invés de trazer o significado correto do nome, que o público em geral provavelmente não conhece.4 Bleuler criou o termo para descrever o que ele acreditava ser a característica mais proeminente da esquizofrenia, que é uma aparente desconexão entre as funções psíquicas, como personalidade, pensamento, memória e percepção.4
Dessa forma, a linguagem e a terminologia usada na saúde mental devem incentivar a empatia, a justiça, a honestidade, a humildade e o respeito.5 Uma das principais maneiras de realizar isso é usar a terminologia centrada nas pessoas, que incorpora o uso da linguagem "people first". Esse conceito prioriza a pessoa sobre a condição ou deficiência, facilitando a transição da linguagem baseada em déficit para a baseada em força e resiliência.5
O estigma relacionado aos rótulos dos transtornos mentais é uma das principais preocupações associadas ao tipo de linguagem usada. O uso de rótulos pode perpetuar o medo e o preconceito em relação a estes transtornos.2,4 Esse medo pode, então, levar à discriminação e preconceito contra pessoas que vivem com transtornos mentais.4 O impacto desse estigma pode ser profundo. Ele pode impedir que as pessoas busquem ajuda e pode dificultar o acesso ao suporte e tratamento apropriados.2
Devemos adotar uma nova terminologia?
É crucial abordar as limitações e desafios impostos pela linguagem para criar uma sociedade mais inclusiva e compreensiva, adotando uma linguagem que reconheça a diversidade de experiências e evite estigmatizar e rotular as pessoas.
Renomear os transtornos mentais tem dois efeitos principais. Primeiro, pode ajudar a eliminar conotações e estereótipos negativos que são frequentemente associados a essas condições.4 Em 2002, o Japão foi o primeiro país a alterar formalmente o termo esquizofrenia, de seishin-bunretsu-byo (doença de dissociação da mente) para togo-shiccho-sho (distúrbio de integração) em nível nacional. Diversos relatórios publicados após a alteração da terminologia sugeriram que a renomeação da esquizofrenia pode ser uma estratégia para reduzir o estigma.4 Além disso, um estudo conduzido em Taiwan avaliando o efeito de renomear a esquizofrenia nas atitudes dos estudantes de medicina em relação à condição mostrou que a renomeação pode reduzir o estigma.6
Em segundo lugar, renomear os transtornos mentais também pode contribuir para reduzir as barreiras que os indivíduos enfrentam na busca de ajuda e apoio. Muitas pessoas podem evitar buscar tratamento devido ao medo de serem rotuladas ou julgadas com base em seu diagnóstico.2 Usando termos mais neutros ou descritivos, podemos criar um ambiente que incentive as pessoas a procurar ajuda sem medo de discriminação.
No entanto, é importante observar que apenas a renomeação não é uma solução para abordar as questões complexas em torno da saúde mental.4 Renomear um termo estabelecido e amplamente usado é um processo demorado e complexo com consequências de longo prazo desconhecidas.4 Até o momento, a comunidade científica não concordou com nenhum nome alternativo para condições como esquizofrenia.4 A desestigmatização da saúde mental deve ser acompanhada por educação e esforços para garantir que todos os membros da sociedade, incluindo pessoas com problemas de saúde mental, sejam tratados com respeito e tenham direitos iguais.4
Concluindo, renomear os transtornos mentais tem o potencial de desafiar os preconceitos sociais e reduzir o estigma em torno da saúde mental. No entanto, mudar nomes não eliminará necessariamente o problema do estigma; o que precisa ser alterado é como o público percebe a saúde mental. Também é importante observar que esses nomes não são fixos ou definitivos. À medida que a nossa compreensão dessas condições continua a evoluir, as denominações também devem evoluir. É crucial abordar esses termos com sensibilidade e respeito por aqueles que vivem com essas condições.
Leitura adicional
Lasalvia A. Words matter: after more than a century ‘schizophrenia’ needs rebranding. BJPsych Adv 2018;24:33–36.
Um artigo que analisa a renomeação da esquizofrenia e as complexidades envolvidas no processo, como o processo longo e complexo que necessita da participação de todas as principais partes interessadas (ou seja, pacientes, cuidadores, profissionais, pesquisadores e o público em geral), que também deve ser acompanhado por campanhas educacionais e antiestigma generalizadas.Klein P, et al. Structural stigma and its impact on healthcare for consumers with borderline personality disorder: protocol for a scoping review. Syst Rev 2021;10:23.
Artigo de revisão explorando a literatura internacional sobre o estigma estrutural associado ao TPB e seu impacto nos serviços de saúde, pessoas com TPB e seus cuidadores/famílias.
Cite este artigo como Rethinking the terminology: mental health conditions and label-propelled stigma. Connecting Psychiatry. Publicado em março de 2024. Acessado em [dia mês, ano]. [URL]
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Adityanjee, et al. Psychiatry Clin Neurosci 1999;53(4):437–448.
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National Collaborating Centre for Mental Health (UK). Borderline Personality Disorder: Treatment and Management, 2009. British Psychological Society, Leicester, UK.
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Crocq MA, Crocq L. Dialogues Clin Neurosci 2000;2(1):47–55.
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Gaebel W, Kerst A. Epidemiol Psychiatr Sci 2019;28(3):258–261.
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Richards V. Lancet Psychiatry 2018;5:460–461.
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Chiu YH, et al. Int J Environ Res Public Health 2021;18:9347.
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Yamaguchi S, et al. Psychiatry Clin Neurosci 2017;71:347–362.
SC-US-76702
SC-CRP-14898
November 2023
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