Considere essa informação: Alimentos para a mente

A série "Considere essa informação" explorará os fatores que influenciam a saúde mental e que, sem dúvida, merecem mais atenção. Você receberá novas perspectivas por meio de uma discussão sobre os fatores que afetam o desenvolvimento de condições graves de saúde mental e uma revisão da literatura sobre o seu impacto na evolução destes transtornos; em última análise, você poderá usar esse conhecimento para facilitar as discussões com seu paciente.

Em resumo

  • Embora haja muitos fatores que contribuem para nossa saúde mental, um aspecto que muitas vezes é negligenciado é a influência que a saúde intestinal pode ter sobre o humor e a saúde mental.
  • A microbiota do trato gastrointestinal interage com o cérebro, e sua modulação pode desempenhar um papel crucial na fisiopatologia de doenças neuropsiquiátricas, incluindo transtorno depressivo maior, ansiedade e outras transtornos mentais.
  • Nossa compreensão sobre a relação entre a microbiota intestinal, a nutrição e a saúde mental está evoluindo. Entretanto, mais pesquisas são necessárias para entender totalmente os mecanismos e inter-relações e suas implicações para os cuidados de saúde mental.
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Como a microbiota intestinal pode modular a neurotransmissão

A conexão intestino-cérebro refere-se à relação entre a microbiota intestinal e o cérebro.1 O intestino humano aloja trilhões de micro-organismos, incluindo bactérias, vírus, e outras organismos unicelulares — coletivamente conhecidos como microbiota intestinal.A microbiota intestinal interage com o cérebro bidirecionalmente por meio das vias de sinalização neural, inflamatória, e hormonal.1,2 Alguns metabólitos neuroativos são produzidos pela microbiota intestinal e podem afetar as concentrações de neurotransmissores, seus precursores, ou ambos, a nível cerebral. A produção de metabólitos neuroativos é um mecanismo pelo qual o intestino pode potencialmente afetar a emoção, memória, e aprendizagem.3 Por exemplo, os metabólitos bacterianos, como os ácidos graxos de cadeia curta, são capazes de modular a neurotransmissão serotoninérgica.4 A expressão e a função anormais da serotonina no cérebro são associadas à fisiopatologia de transtornos mentais, como depressão e ansiedade.3 Os metabólitos da microbiota intestinal afetam a produção de vários outros neurotransmissores, como o ácido gama-aminobutírico (GABA), glutamato, serotonina e dopamina, que são importantes não apenas para a regulação da função intestinal, mas também para a função cerebral.3–5  

Compreendendo a conexão intestino-cérebro no desenvolvimento de transtornos mentais

Alterações da microbiota intestinal, conhecidas como disbiose, têm sido correlacionadas a vários transtornos mentais, incluindo transtorno depressivo maior, ansiedade, esquizofrenia, entre outros.2,5–7 Uma das muitas causas da disbiose é uma dieta não saudável que consiste em alimentos ricos em calorias e altamente processados, bem como alimentos contendo emulsificantes e adoçantes artificiais.7,8 Uma dieta não saudável pode comprometer o revestimento intestinal e levar a vários desequilíbrios no intestino, como deficiências nutricionais e síndrome do intestino permeável (leaky gut).7–9 Deficiências nutricionais podem ter um impacto significativo na função do sistema nervoso e podem afetar a saúde mental.9–11 Condições como a síndrome do intestino permeável, que faz com que metabólitos intestinais vazem para a corrente sanguínea, podem desencadear a ativação imunológica e a inflamação.7,8 A ativação imunológica sustentada e a inflamação que acompanham a síndrome do intestino permeável têm sido implicadas em uma variedade de doenças e transtornos mentais, como o transtorno depressivo maior.6–8 Vários estudos relataram evidências de alterações relacionadas à dieta na microbiota intestinal e a presença de certas espécies microbianas com uma associação aparente com vários transtornos neuropsiquiátricos.5

A comida que comemos tem um impacto direto no nosso intestino e na nossa saúde mental.

Consumir uma dieta balanceada, rica em probióticos e prebióticos, pode ajudar a melhorar a saúde do intestino e, por sua vez, a conexão intestino-cérebro.11,12 Os probióticos são micro-organismos vivos que, quando ingeridos em quantidades adequadas, podem ajudar a restaurar o equilíbrio bacteriano intestinal.4,7,13 As pesquisas sobre os efeitos dos probióticos na saúde mental são promissoras, com alguns estudos sugerindo benefícios para depressão, transtorno bipolar e esquizofrenia, mas os achados continuam inconsistentes. Mais evidências são necessárias para determinar sua eficácia geral.4,13 Prebióticos, por outro lado, são fibras não digeríveis que servem como uma fonte alimentar seletiva para a microbiota intestinal. Eles promovem o crescimento de certas bactérias benéficas e contribuem para a saúde do hospedeiro.4,7 Embora um estudo inicial interessante tenha descoberto melhora da função cognitiva em pacientes hospitalizados com esquizofrenia usando prebióticos, estudos maiores são necessários para replicar esses achados antes que conclusões definitivas possam ser tiradas.4 Além de fatores alimentares, outros fatores de estilo de vida, como o estresse, podem alterar a microbiota intestinal.8,14 O estresse pode alterar a microbiota intestinal, que por sua vez influencia o complexo sistema de neurotransmissores, marcadores inflamatórios, e neuropeptídeos presentes no intestino e no cérebro.14 O estresse é associado a alterações na função da serotonina no córtex pré-frontal medial e em outras áreas cerebrais envolvidas na resposta ao estresse, a função serotoninérgica alterada é associada tanto à depressão quanto ao transtorno de estresse pós-traumático.14 Compreender a conexão intestino-cérebro abre novas possibilidades para tratar transtornos mentais.

Um jovem campo de estudo com implicações potenciais fascinantes

Embora as pesquisas sobre a conexão intestino-cérebro tenham acelerado nos últimos anos, elas ainda estão em seus estágios iniciais e os estudos variam bastante em termos de desenho, população, tipo de análise da microbiota e resultados. Estudos longitudinais, com tamanhos amostrais e períodos de acompanhamento maiores, com metodologia consistente, controlando fatores de confusão, são necessários.15 Apesar das limitações das informações atuais, existem várias abordagens potenciais apoiadas por novas evidências pré-clínicas e clínicas, como uso de anti-inflamatórios, dieta mediterrânea, ou a incorporação de aconselhamento dietético às estratégias de tratamento farmacológico e comportamental.11 Expandir nossa compreensão sobre a microbiota intestinal em populações maiores de pessoas com transtornos mentais, bem como a influência de medicamentos e hábitos alimentares nesses micro-organismos, podem levar a descobertas fascinantes, como pro/prebióticos específicos para cada transtorno mental.4 Levar em conta a conexão intestino-cérebro pode trazer benefícios ao planejar um plano terapêutico holístico para pessoas com transtornos mentais.4

Leitura adicional

  • Martins LB, et al. Nutrition-based interventions for mood disorders. Expert Rev Neurother 2021;21:303–315.
    Esse artigo discute as evidências atuais sobre a interação entre nutrição e humor, além dos tratamentos nutricionais para transtorno depressivo maior e transtorno bipolar, enquanto analisa vários fatores nutricionais, como padrões alimentares e microbiota intestinal.
  • Mind. Food and mental health. Disponível em: https://www.mind.org.uk/information-support/tips-for-everyday-living/food-and-mental-health/. Acessado pela última vez em novembro de 2023.
    Este site é uma fonte de referências e recursos úteis para apoiar discussões com pacientes sobre alimentação e saúde mental.

Cite este artigo como Factor It In: Food For Thought. Connecting Psychiatry. Publicado em maio de 2024. Acessado em [dia mês, ano]. [URL]

  1. Malan-Muller S, et al. OMICS 2018;22:90–107.

  2. Firth J, et al. BMJ 2020;369:m2382.

  3. Chen Y, et al. Nutrients 2021;13:2099.

  4. Borkent J, et al. Psychol Med 2022;52:1222–1242.

  5. Xiong RG, et al. Nutrients 2023;15:3258.

  6. Capuco A, et al. Adv Ther 2020;37:1328–1346.

  7. Liu L, et al. EBioMedicine 2023;90:104527.

  8. Mansour SR, et al. New Microbes New Infect 2021;41:100845.

  9. Zielińska M, et al. Nutrients 2023;15:2433.

  10. Mörkl S, et al. Neuropsychobiology 2018:1–9.

  11. Horn J, et al. Transl Psychiatry 2022;12:164.

  12. Fekete M, et al. Nutrients 2024;16:789.

  13. Maftei NM, et al. Microorganisms 2024;12:234.

  14. Bremner JD, et al. Nutrients 2020;12:2428.

  15. Järbrink-Sehgal E & Andreasson A. Curr Opin Neurobiol 2020;62:102–114.

SC-US-76913

SC-CRP-15910

Maio de 2024

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