Intervenção precoce em saúde mental: benefícios e desafios

Em resumo

  • As estratégias de tratamento de saúde mental atuais destacam a importância da intervenção precoce
  • Como os transtornos mentais normalmente surgem no início da vida, a adolescência e o início da idade adulta são períodos críticos para intervenção
  • Quando disponíveis, os serviços de intervenção precoce comprovaram ser altamente acessíveis para jovens e têm resultados positivos na prevenção ou retardo do início dos transtornos mentais
  • Apesar do progresso feito no campo da saúde mental, ainda é necessário desenvolver modelos de saúde mental juvenil e estratégias de intervenção precoce, especificamente para transtornos não psicóticos
intervenção precoce

 

A saúde mental hoje: por que precisamos de uma transformação nos cuidados de saúde mental?

Aproximadamente 1 bilhão de pessoas em todo o mundo, quase uma em cada oito, vivem com um transtorno mental.1 Os sintomas dos transtornos mentais normalmente surgem no início da vida – relata-se que metade dos casos de transtornos mentais têm início até os 14 anos de idade2 e 75% até os 25 anos de idade.3 Globalmente, estima-se que um em cada sete crianças e adolescentes com 10 a 19 anos de idade (aproximadamente 166 milhões de pessoas) viva com algum transtorno mental,4 e o surgimento destes transtornos é identificado cada vez mais em crianças pré-escolares ou ainda mais jovens.5 O suicídio é a quarta principal causa de morte em indivíduos com idades entre 15 e 29 anos de idade6 e a prevalência e gravidade dos transtornos mentais entre jovens aumentaram acentuadamente desde março de 2020.2 Os sinais precoces de sofrimento em jovens são frequentemente negligenciados ou considerados como não sendo preocupantes o suficiente para justificar o encaminhamento a serviços especializados.5 Como resultado, o sistema de saúde mental atual é reativo, resultando em encaminhamento e diagnóstico uma vez que os problemas estejam bem estabelecidos.5 Os jovens com transtornos mentais não tratados ou não diagnosticados têm maior probabilidade de apresentar disfunção familiar, desempenho escolar ruim, encarceramento, transtorno por uso de substâncias, desemprego, e morte por suicídio.2 

Em 2022, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou o Relatório Mundial de Saúde Mental da OMS: Transformando a saúde mental para todos, na qual eles destacam uma necessidade urgente de transformar os serviços de saúde mental em todo o mundo.7 Um passo para essa transformação passa pela implementação de estratégias de intervenção precoce para apoiar adolescentes e adultos jovens.

 É necessário preparar os serviços de saúde para oferecer estratégias de intervenção precoce

Apesar  de muitos transtornos mentais surgirem antes da idade adulta, adolescentes são menos propensos a acessar serviços de saúde mental do que qualquer outro grupo etário.3 Essa subutilização é alarmante, uma vez que a intervenção precoce pode retardar a progressão dos transtornos mentais e reduzir a mortalidade e morbidade em longo prazo.3 Por outro lado, quando buscam ajuda, jovens com sintomas mentais emergentes podem não atender aos critérios de diagnóstico de adultos, levando a um acesso insuficiente aos cuidados e oportunidades perdidas para intervenção precoce.3

O momento da intervenção é fundamental. Os avanços na psiquiatria do desenvolvimento e psiquiatria infantil determinaram que experiências adversas na infância são associadas à maioria dos transtornos mentais em adultos.5 Portanto, a solução para o problema da saúde mental em adultos, que é cada vez maior e mais incapacitante, pode estar, pelo menos em parte, em esforços para melhorar a saúde mental no início da vida.5 É durante esse período de maleabilidade do desenvolvimento que as oportunidades para corrigir os problemas de saúde mental serão mais eficazes.5

São necessários modelos de saúde específicos para jovens, que promovam cuidados multidisciplinares integrados dentro do contexto de cuidados primários, voltados para prevenção e intervenção precoce.3,5 Esses modelos devem priorizar ambientes familiares saudáveis como meio de proporcionar a melhor oportunidade para o bem-estar mental ao longo da vida – isso inclui o suporte a relacionamentos entre pais e filhos, saúde emocional e comportamental dos pais e rotinas familiares.5

Intervenção precoce em adolescentes: que evidências temos para seu sucesso?

Os primeiros modelos de intervenção precoce – focados em ajudar indivíduos com transtornos psicóticos – foram bem-sucedidos e abriram caminho para a mudanças ao redor do mundo.3,8 Os modelos mais recentes expandiram suas áreas de interesse, desde transtornos psicóticos a transtornos de humor, personalidade, alimentares e por uso de substâncias.3,8 Como resultado, os serviços de saúde multidisciplinares e integrados para jovens com problemas de saúde mental e suas famílias estão se tornando mais fáceis de acessar.8

Em 2006, uma iniciativa financiada pelo governo da Austrália levou à criação do Headspace, um serviço multidisciplinar e integrado que fornece intervenção e prevenção precoces para pessoas de 12 a 25 anos com preocupações emergentes de saúde mental.3 O sucesso do Headspace fluiu para outras partes do mundo, com o Reino Unido, Irlanda, Canadá, Estados Unidos, Europa e Ásia adotando modelos semelhantes.3

Embora o refinamento e a expansão dos serviços de intervenção precoce estejam em andamento, o progresso feito até agora começou a preencher uma lacuna crítica no fornecimento de serviços de saúde mental multidisciplinares e livres de estigma adaptados a jovens.3,8

Intervenção precoce em adolescentes: Direções futuras

As evidências atuais são altamente encorajadoras e apoiam a implementação ampla de intervenção precoce para psicose. Quando disponível, serviços de intervenção precoce para transtornos não psicóticos, como transtornos de humor e personalidade, comprovaram ser altamente acessíveis aos jovens e tiveram resultados positivos para a prevenção ou retardo do início dos transtornos mentais.3 Por exemplo, evidências apoiam o uso de estratégias de intervenção precoce tanto na depressão quanto no transtorno bipolar.3 No entanto, a intervenção precoce para transtornos não psicóticos ainda está ganhando suporte e progresso é necessário nessa área. Ao determinar as intervenções mais eficazes para melhorar os resultados funcionais e fornecer oportunidades para um futuro produtivo, poderemos perceber mais plenamente o potencial da intervenção precoce para adolescentes com problemas de saúde mental.

Leitura adicional

  • Buka SL, et al. Pediatrics 2022;149:e2021053509L. The Family is the Patient: Promoting Early Childhood Mental Health in Pediatric Care.
    Um artigo da Academia Americana de Pediatria (American Academy of Pediatrics, AAP) descrevendo seis princípios fundamentais de saúde mental na primeira infância, cinco novas abordagens de intervenção e novas opções para financiar a organização de serviços que poderiam formar a base de um sistema transformador de desenvolvimento de saúde mental.
  • Hickie IB, et al. Med J Aust 2019;211(Suppl. 9):S3–S46. Right care, first time: a highly personalised and measurement-based care model to manage youth mental health.
    Artigo que descreve um modelo de cuidados altamente personalizado para tratar a saúde mental da juventude.

ACCESS, Conexões de adultos e jovens adultos a serviços antecipados baseado em potências e livre de estigmas destinados à comunidade (Adolescent/young adult Connections to Community-driven Early Strengths-based and Stigma-free services); MCPAP, Programa de acesso à psiquiatria infantil de Massachusetts (Massachusetts Child Psychiatry Access Program).
*A lista não está completa.

Cite este artigo como Early Intervention in Mental Health Care Challenges. Connecting Psychiatry. Publicado em maio de 2023. Acessado em [dia mês, ano]. [URL]

  1. Kuehn BM. JAMA 2022;328:5–7.

  2. Mental Health America. Child and adolescent mental and behavioral health principles. 2021. Disponível em: https://www.mhanational.org/sites/default/files/CAMH%20Principles%202021%20Final%2005-04-21.pdf. Último acesso: Novembro de 2022.

  3. McGorry PD & Mei C. Evid Based Ment Health 2018;21:182–184.

  4. United Nations Children’s Fund (UNICEF). The state of the world’s children. 2021. Disponível em: https://www.unicef.org/media/114636/file/SOWC-2021-full-report-English.pdf. Último acesso: Novembro de 2022.

  5. Buka SL, et al. Pediatrics 2022;149:e2021053509L.

  6. World Health Organization. Suicide. 2021. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/suicide. Último acesso: Fevereiro de 2023.

  7. World Health Organization. World mental health report: Transforming mental health for all. 2022. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240049338. Último acesso: Fevereiro de 2023.

  8. Colizzi M, et al. Int J Ment Health Syst 2020;14:23.

SC-US-75154

SC-CRP-13430

Abril de 2023

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